segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meu outono chegou




Eu e Antonia somos as mais perfeitas cafeteiras, não fazemos um bom café nem somos possuidoras da melhor cafeteria italiana. Nós bebemos muito café, isso sempre em charmosas cafeterias. É dessa maneira que encontramos pessoas charmosas e de bem gosto. Parceiras de idade e estado civil anotem isso.
- Boa tarde amiga. Tudo bem!
-Sim, Antonia. Estou ótima. Vamos sentar e pedir um café?
- Por favor! Elisa o nosso café de sempre!
São 14 horas de um outonal, com temperatura não passando dos 18 graus. No caminho até o café era perceptível a chegada da nova estação, as folhas amareladas já cobriam o chão.
Comento com Antonia sobre a estação, nunca sobre o tempo, pois assuntos não nos faltam.
- Os dias estão como gosto, um friozinho lembrando que o inverno está próximo.
- Sim, lembre-se de sua promessa pessoal, este não será um inverno solitário.
- Não esqueci. Mas não saio à procura. Isso virá e logo.
As conversas fluem. Planos, idéias e sentimentos pessoais são discutidos.
Sinto um aroma diferenciado no ar. Olho ao redor e vejo uma camisa amarela vestindo uma interessante figura outonal. 
Antonia que não possui visão periférica chama Elisa para mais um café. E ao virar-se, espanta-se:
- Augusto! Há quanto tempo? Por onde andas?
Ele se aproxima e mesmo de pé conta a sua história. Indescritível é o seu perfume.
- Divorcie-me, mudei de cidade e de empresa. Tenho muitas novidades para você.
Antonia em sua comum simpatia o convida a sentar-se para um café.
Passo a expectadora, não faço parte da amizade. Curto o cheiro do café, do perfume e da visão outonal agora sob forma humana e sentada na cadeira ao lado.
Planos, pensamentos e a atitudes passam a ser discutidos a dois.
Ouço tudo e faço um questionamento com o lado esquerdo do cérebro: existem mesmo moléculas específicas que permitem a comunicação química entre indivíduos, o tal feromônio?
“... mulher é para ser companheira e não empregada doméstica.” É o final da frase de Augusto.
Peço licença a dupla e pergunto ao amigo de Antonia.
- Quer namorar comigo?
Ele muda rapidamente de assunto e eu me calo. Não fui cortada apenas desviada. Como é preciso muito mais que falta de atenção para me chatear. Trocamos um sorriso e o rumo da conversa.
Amenidades, lembranças e identificações passam a fazer parte da conversa agora a três.
- Eliza! Por favor, mais três cafés.
Hora da despedida chega. Eu tenho 200 km para voltar. Antonia e Augusto saem juntos.
Já em casa, meu telefone toca. Antonia pergunta se fiz boa viagem. Afirmo que foi tranquila.
- O que você fez com meu amigo? Não consegui manter diálogo comercial, só queria saber de você. Contei o que com certeza você permitiria. Mas ele levou o Portal Veneza para ler.
- Sem problemas. Pouco tenho a esconder e o que tenho nem você sabe.
E a vida seguiu por uma semana e o telefone tocou.
- Boa noite. Como está a escritora e cronista do Portal Veneza?
- Vou bem. Quem fala, por favor?
- É Augusto, seu leitor e grande tomador de café. Agora pronto para responder a sua pergunta.
- Qual pergunta?
- Se esqueceu, eu pergunto. Quer namorar comigo?
Silencio para pensar. A química fala por si e por mim.
- Tudo bem! Me responda hoje à noite em nosso jantar. É Augusto quebrando o meu silêncio.
Finda a ligação. Começa o meu compromisso. E era para ser só um café outonal. 

domingo, 18 de setembro de 2011

Jack o sedutor



Volto ao jardim que tanta paz me traz
A primavera explode em cascatas de hera.
Já havia me esquecido o perfume das orquídeas.
Sinto-me no paraíso.
Tenho de desfrutar com alguém.
Cadê a grande invenção do homem.
Aqui... 999.......
Do outro lado uma voz de sono.
Alô.
Acordei você?
Sim...que bom te ouvir.
Meu paraíso virou céu.
Estou com teu gosto ainda em minha boca.
Não tenho resposta.
Ele insiste...quero te ver.
Bem...estava pensando em você...aqui...e descrevo o local.
Mas, posso ir até aí.
Venha não demore. O mar está louco para nos ver.
Desligo, caminho, tomo água, como maracujá, demoro...
Sigo com Ivan Lins:
Sempre exuberante, quente, tem sal...”
Chego. Os sorrisos não escondem ambas alegrias.
O mar nos espera.
O cheiro marinho provoca...as ondas estão em total rebeldia.
Será um espelho para nós dois?
Sou calada em meio a uma frase.
Horas, minutos ou segundos depois.
Você me confunde, não te descubro e te quero.
Os olhares não se encontram, fitam as bocas.
A respiração muda e o silêncio impera.
Guerra de pensamentos...eu com os meus e ele com os dele.
Não há recuo, só silêncio.
A respiração torna-se única.
Braços viram abraços.
Suas mãos contornam meu corpo.
Meu corpo anseia pelas suas mãos.
Não consigo dominá-lo, cadê a indomável fera?
A noite cai e a blusas se abrem.
A sedução paira no ar.
Seu olhar me provoca e sem pudor me exibo.
As frases são ditas a dois centímetros.
Mil vezes me fez dizer que o desejava.
Duas mil vezes o desejei.
Afasta-me dele para me ver melhor.
Te quero, mas não hoje...quero desfrutar dessa tua provocação.
...provocação... penso...você ainda não viu nada.
Encaro-o,  explodindo em desejos ao olhar os contido em sua boca.
Seu meio sorriso, meio olhar não me fazem ganhar a guerra.
Nem penso em recuperar a razão. Não há razão.
Seu autocontrole me domina, me anima, me tira da rotina.
Seu jeito Jack, por partes, me alucina.
Viro presa fácil...
Mas Jack não quer cometer seu crime, não hoje.





De gatos eu sei




Acordo com o miar na porta do quarto.
Abro a porta.
Entra em passo manso e elegante, reclamando da porta fechada. Acomoda-se no seu entre os meus lençóis brancos e começa a ronronar como se estivesse no próprio paraíso.
O sono me vence. Ainda é cedo. Fecho os olhos.
Sinto um leve toque no queixo. Um sinal de "hora de acordar". Ao abrir os olhos, vejo outros, lindos e azuis a me encarar. Que olhar! Derreto-me.
O olhar insiste e o ronronar é continuo.
Hora de levantar.

Espreguiçamo-nos, deixamos o ninho rumo à cozinha. É hora da fome. Dele, é claro! E não vai largar do meu pé até receber uma comida de bom sabor em prato de porcelana.
Vou para meu estúdio, ele corre a instalar-se em cima do teclado, bem na minha cara. No melhor estilo face-to-face.
Bem é hora de trabalhar... Afinal, quem paga o atum da casa?
Fim do dia... Retorno.
Há sinais de quem dormiu uma tarde inteira sobre a cadeira, uma preciosa relíquia da década de 40 forrada em veludo alemão. Confesso que muito tive que poupar para conseguir adquiri-la.
Nem consigo andar pela casa, o bichano se esfrega, enrosca em minhas pernas e todo dengoso pede colo. Há também os dias em que se estira no chão com a barriga para cima, num ato mais ou menos "quero atenção, você sai o dia inteiro e eu fico aqui sozinho ".
Minhas mãos se ocupam em seu corpo peludo por um bom tempo.
Depois da ação devidamente desfrutada, ele me dá às costas e sai a perambular pela casa.
Viro vassala a aspirar alguns pêlos.
Puxo o tapete.
O que encontro?
- Uma doida varrida para baixo dele?
Não.

Mosquitos e outros espécimes que foram caçados e ali depositados para não sujar o ambiente. Gatos odeiam sujeira.
Vou ouvir música. Canto gregoriano nem pensar! Ele corre pela casa parecendo uma fera.
Ele tem lá seu gosto, prefere o blues à música clássica e também o atum à sardinha.
Curioso por natureza, enfia-se em tudo quanto é armário.
Ler a seu lado nem pensar. Ele não hesita em sentar sobre o jornal ou livro com a maior naturalidade se mistura às manchetes e personagens.
Seleciona e faz charme na hora de comer.
Não troca um banheiro limpinho por nada deste mundo. E seu esporte preferido é lagartear numa mancha de sol sobre uma superfície macia do mais nobre tecido da casa.
Decifrá-lo é minha tarefa diária: preguiçoso, amoroso, miador, ciumento, sensível e personalíssimo. Assim é meu felino.
Nos momentos felizes, soma ainda mais alegria à minha vida. Nos momentos de tristeza, por vezes é meu único companheiro.
Se entristeço, ele logo pressente meu desassossego e vem sentar-se no meu colo, acaricia-me , ronronando e roçando o focinho. Num agradável, áspero e gelado beijo esquimó.
É..."Se o cruzamento do homem e do gato fosse possível, aprimoraria o homem mas deterioraria o gato", disse Mark Twain.
Eu? Nada a declarar.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Porque hoje é sábado.

O celular toca.
É aquela ligação que eu não esperava.
Olá, Como vai?
Oiii! Estou bem!
O que vai fazer nesta noite de sábado?
Dormir.
Onde?
Na minha cama.
Sozinha?
Sim. Por que?
Venha me ver aqui em B. Estou com saudade.
E o que você faz ai em B? Uns amigos vieram jogar e eu vim para ficar com você.
Mas eu não moro em B a minha cidade fica 130 km para trás, você passou por aqui.
Sim passei. Mas venha. Quero te ver.
Calma, calma. Estou vendo um programa interessante na TV, penso depois e ligo.
Claro, eu espero. São apenas 18 horas.
... Acabou o programa. Olho pela janela e vejo muita chuva e frio e com o agravante de ser sábado. Dia que odeio que me impunham compromissos. Sábado é o meu dia.
Penso e ligo.
Não vou não. Adoro ficar em casa, já estou de pijama. E durante a semana não pude ficar em nenhum momento sozinha em casa.
Não aceito um não como resposta. Quero você. E já me preparei para te receber.
Vamos sair, jantar e depois para o hotel, quero matar a saudade.
Desligo sem dar nenhuma afirmativa. Aos poucos vou colocando roupas extras e produtos de toalete em uma valise. Vou para o banho, capricho no visual e no aroma.
Um tchau para meus animais e sigo para os 40 minutos que me separam de uma noite especial em B.
Passado 30 minutos toca o fone.
Onde você está?
Quase aí.
Legal, te espero na frente.
Oi... Que bom que veio.
... Surdos sons de beijos saudosos ecoam pelas ruas de B.
Passeio de mãos dadas, jantar e o enfim sós.
Sinto muito, não temos mais nenhum apartamento disponível, disse o recepcionista do hotel.
Como assim? Penso e nada falo.
Já estou hospedado aqui, quero apenas mudar para outro quarto.
Só temos um quarto e estamos aguardando o hóspede chegar.
Sento-me distante para que as coisas se resolvam. Afinal me foi prometido uma noite especial e hoje é sábado, o meu dia.
Querida, vamos dar uma volta. Daqui a 15 minutos vence a reserva, é provável que o hóspede não chegue.
Concordo e saio para um novo passeio de mãos dadas.
Minha pouca indignação é afugentada pela agradável companhia.
Voltamos e nada foi resolvido.
Sou uma sem cama e sem noite agradável em B.
Querida, espere-me aqui, vou subir pegar uma roupa e voltar 130 km com você.
Sim. Mas não confie que eu espere.
Você não faria isso. Já volto.
Passo para o banco do motorista, ligo carro e celular e digo apenas:
estou indo...
Hoje é um dia especial.
E eu também queria ser especial, mas nada estava preparado para me receber.
Só porque hoje é sábado, o meu dia.
Eu fui.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sou da real


Há dia em que nada, nem mesmo o prazer da leitura consegue me entreter.

Você com tédio? Parece ser difícil.

Sim sou mortal, também tenho dias de tédio ou fastio como queira.

E qual a última vez que isso lhe aconteceu?

Semana passada, quando o calor passava dos quarenta e minha conta de luz dos 200 reais.

Por quê?

Ar condicionado e internet. Meu mundo se fechou com as janelas e portas da minha casa. Fiquei tal e qual o Mundo Ovo de Eli Heil. Mas, não sendo excêntrica como ela e com a lógica de meu raciocínio explico. Se o mundo não me satisfaz, crio outro, menor, mas meu.

E o que você visitou em suas viagens virtuais?

Nada, apenas tentei fazer amigos sem corpo só com inteligência. Mas olha amiga é praticamente impossível.

Mas o que é ruim? Os assuntos, a gramática, as atitudes...

Na maioria das vezes as duas coisas, mas nada se compara a criatividade dos apelidos utilizados nos chats criados para pessoas beirando terceira idade.

Você quer dizer entre 40 e 50 anos creio eu. Como selecionavas as pessoas para papear?

De um modo bem simples. O cara que colocava o apelido seguido da palavra “cam”, eu nem respondia ao cumprimento,isso porque na segunda linha do papo já mandam “ posso te ver na câmera”? Descarta-os pelo silêncio. Jamais mostraria como eu vivo para alguém que realmente desconheço, isso é invasão de privacidade. Não faço, não quero.

Se analisarmos pela lógica que você tanto defende, tens toda a razão.

Ulah lah! Uma análise sem condenação. Mas continuando, há ainda os que entram com apelidos apelativos, tipo: Kasado e só, Nú pra você, Salgadinho, (H)Ker namorada, 40ntão separado, Empresário na cidade, Sucatão, Só(H)Mulheres e por ai vai um verdadeiro festival de bizarrices,. Mas há piores, no entanto não posso escrever aqui. Algum servo de Maria pode me chamar atenção.

Não posso esquecer dos criativos, nicks que estimulam a minha curiosidade e na maioria das vezes atrás dele há uma pessoa virtualmente interessante. E se não há, a explicativa por ser.

E com quais explicáveis você teclou?

Com vários, entre eles o Não quero Teclar(H), Spantalho, Plácido, Raptor e em especial o Quero Fofa, esse eu não poderia perder... Esses são os que me lembro, pois foram além da quinta linha digitada sem que eu a ignorá-los.

E os que não passaram da quinta, quais os pecados virtuais cometidos?

Simples, a mesmice das perguntas cansa. Acho até que não deveríamos entrar com um apelido e sim com um kit com informações prévias?

Como assim?

Um kit com subsídios necessários a sua pretensão virtual. Um resumo das características intelectuais ou até físicas para quanto essas sobrepõem o intelecto.

O que você sugere para quem quer fazer do mundo virtual uma agência de namoro?

Tudo depende do seu querer também, se só quer sexo casual tecle com o Desejo Ardente (H). Se seu caso é aventura, fique com o Homem Bronzeado ou ainda com o mais explícito HKer ou o Desejo Ardente/H.

Torno a perguntar: como devo me apelidar se eu quero namoro mesmo?

Eu é que pergunto a você: você quer um namoro que comece com sexo ou com atestado de inteligência?

Agora você apelou.

Você é bonita, bem sucedida, inteligente e com um papo extremamente agradável, porque iria para uma sala virtual?

Faço a mesma pergunta a você, não me diga que era para fugir do calor?

Também, já que os homens fogem de mim...

Creio que não é bem assim.

Bem assim não é, mas no mundo virtual eu não poderia me apresentar sob o kit “loura,1,67,53k”. Não conseguiria sustentar mentiras, nem mesmo as virtuais. E se conseguisse, o lado de lá ficaria na categoria Quinta Linha.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Palavras caladas


Em uma tarde sacro outonal, decidi que num passado distante estive em clausura. Parte de mim quis ser casta por 15 minutos e escolhi a Congregação Mariana para fazer parte deste passado imaginário.

Meigas imagens infantis remeteram-me ao Padre Amílcar e sem pestanejar disse ter estado na congregação dos servos de Maria.Uma mentira imediatamente interpelada pelo meu amigo o Homem da Montanha:
- Mas como você conseguiu? Com certeza é a primeira e ainda única mulher que passou por lá parte.
-Como assim?
- Por lá só passam homens, é uma congregação de padres e o Padre Amilcar pertencia essa congregação. Porque não optou pelas femininas.
- Bem, primeiro a memória me traiu e também porque as Clarissas andam descalças e eu adoro sapatos.
- E as Benedetinas?
- Não. Poderia ficar com aquele meio sorriso bronco da Irmã Ana Luiza. Não daria certo.
- E as outras ordens?.
- Olha homem montês, sou uma mulher da planície que adora a liberdade , nem o claustro nem batinas me cairiam bem. E indo mais além, também tem Maria no meu nome e isso poderia ficar esquisito.
- Esquisito como?
- A Congregação não abriga os servos de Maria?
- Sim. É isso mesmo.
- Então, veja bem. Eu, uma única mulher arrastando a batina dentro de um mundo eclesiástico, muitos servos eu poderia fazer.
- Então seu negócio é um mundo masculino e servil?
- Não mesmo, senhor Montês. Servos servem com excessivo prazer a um modelo original. Eu prefiro os anarquistas, aqueles que conscientemente sabem dizer não a vontade de alguém. Dizer sim a tudo não nos faz as melhores companhias. Concordas?
- Concordo sem submissão, senhora da planície.
- Só concordas? Em nada discordas ou discorres.
Fez-se um silêncio, talvez celestial, não porque passou um anjo, mas pela companhia quase sacerdotal.
- E... , digo eu impaciente aguardando resposta.
- Calma, será que para você tudo tem que ter réplica, mulher da planície?
- O mundo machista me fez assim. Sempre há uma resposta e eu preciso ficar na defensiva.
- Até que enfim! Grita uma terceira voz.
- Enfim o quê? Gritamos eu e o homem da montanha.
- Até que enfim alguém sabe fazer você silenciar pelo próprio silêncio.
Senza parole , io sono in silenzio.

domingo, 3 de julho de 2011

Café e filosofia


Tomar um café com a velha e jovem amiga Lisa Elisa faz com que a minha tarde seja mais agradável. Ela é daquelas pessoas especiais, com transparência no olhar, amizade no ombro, cheiro do querer bem e um corpo escultural em disposição e presença amiga.
Novidade no ar? Diz Lisa Elisa
Respondo: nada muito novo, apenas que estou saindo um pouco mais.
- Saindo pra onde?
- Para bares, lugares e outros ares. Buscando novas possibilidades, novas pessoas.
- Isso é muito bom. E o que está encontrando?
- Confusões em ebulição. Flertes sem imaginação. Boas conversas. Não dá para enumerar, ainda estou descobrindo. O mundo ficou muito estranho, parece que as pessoas querem ter-se a qualquer preço e a preço nenhum querem ir-se.
- Oh! Amiga, bem vinda ao mundo real. Prepare-se para ouvir frases do tipo:
Depois eu te ligo! Nossa! Como você emagreceu! Descansa que vai dar tudo certo! Só bebo em ocasiões especiais. Não vou contar nada a ninguém! Não é uma questão de dinheiro, mas sim de princípios. Não temos nada um com o outro. Somos apenas bons amigos. Estás cada vez mais jovem. Fico triste por você. O dinheiro não trás felicidade
Sempre serás a única. Ainda bem que já refizeste a tua vida. Fico feliz por ti! O que importa realmente é a amizade. Liguei, mas não atendeu. Na próxima, pago eu!
- Mas assim você me assusta. Traumatizo e não saio mais.
- Calma! Calma! Eu explico. Estou na estrada há tempos, tive que aprender a me virar, mas você é diferente. Você é mais que especial. Você crê em tudo que lhe falam, porque tudo o que você fala é verdade. Suas palavras são sinceras e seus atos ainda mais. Você tem que ver a pessoas da maneira diferente que você vive. Você não pode generalizar a partir de você. No mundo, embora você não veja, há crueldade humana.
- Agora amiga, sem filosofar. Estás ficando com alguém?
- Sim, estou em encantamento. E acho que você conhece.
- Fico feliz, se estás feliz. E posso saber quem?
Num murmuro, Lisa Eliza diz: o Hector.
Pulo da cadeira. O Hector, não! Não! Não! E não!
- Mas por quê?
- Nele há resquícios de canalhice e aprenda logo que canalhas são charmosos. Você está preparada?
- Preparada como? Pergunta Lisa Elisa assustada.
Calmamente filosofo. Interessar-se por integrantes desse clã requer prática. Pois, se você quer mesmo fugir dos canalhas, considere a possibilidade de encantar-se por alguém não muito atraente.É muito importante saber que não é a canalhice que torna um homem atraente, mas ser atraente é o que possibilita a um homem ser canalha. Os não-atraentes não conseguem ser canalhas charmosos, mesmo que queiram, e acabam por ficarem desinteressantes aos nossos olhos.
Mil justificativas podemos dar para esse tipo de atração, e quando chegamos a um resultado desastroso, vimos isso que formos amaldiçoadas: os canalhas são irresistivelmente mais charmosos que os demais homens.
- Mas Hector é um canalha?
- Não sei amiga, mas se não fosse você se interessaria por ele?
Sem palavras, Lisa Elisa me contempla e se levanta.
- Bem vinda a essa rede de intrigas chamada mundo real! E, sente-se para outro café.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Existem Marias e Marias

Amanheci Maria

- Mas isso é normal, és Maria, resmunga Ubaldo.

- Sim, sou Maria de nome e grandeza.

- Não entendi.

Ahh! Homens!!! Penso eu. Será que Ubaldo imagina que me refiro ao dia da faxineira passar por aqui. Deixa pra lá, não vou me estressar por pouca coisa.

- Traga-me um café Maria!

- Meu querido, perdoe-me, mas não sou Maria vai com as outras. Embora eu tenha meu lado de coser e casar, também sou Maria de pecar. Tome tento!

- Estás atacada querida? Ou importunada com algo?

- Não. Estou é lisonjeada em ser tão cantada e encontrada. Veja bem, meu bem!

Gilberto Gil me encontrou sentada numa pedra comendo farinha seca. Jobim, Vinicius e Chico disseram-me querer como presa da poesia. E eu não quis, parti.

Eles não me viram nua, nem mesmo com a lua me chamando.

- Você se envolveu com esses caras minha Maria!

-Como você é tolo! Cuide-se, pois posso partir cantando contra a ventania. E me perdoe o mundo das Carolinas, Michelles, Madalenas, Luizas e nos fizeram ode fez, mas em compensação nem Teixeirinha nos deixou de fora ao dizer que o vento que sobra tem nome de ventania e toda mulher ciumenta tem nome de Maria... Ai, ai, Maria do teu ciúme todo mundo desconfia...

- Maria, onde está meu café?

Não respondo e sigo divagando. Antonio, José e Luis já ficaram na história quando fui contra o vento. Será hora de descerrar a cortina com Ubaldo?

- Cafééééééééé!

Não ouço nada além de meus pensamentos, agora verbalizados tal qual Roberto cantou “ não lhe chamaram assim como tantas, Marias de santas, Marias de flor,. Seria Maria, Maria somente, Maria semente”.

- Você me ouviu?

- Sim, mas quero não ouvi-lo, pois você desconhece esta supostamente sua Maria?

- Conheço muito bem.

- Ledo engano querido! Não sou só um nome de mulher. Sou uma Maria que não dá paz e um homem que se preza, em prantos por mim se desfaz . Nós os fazemos perder a paz.

- Querida Maria, você sempre soube que poesia não é meu forte. No entanto, sempre achei que você era apenas uma senhora soberana. Sem deixar de ser serena e amante da vida. Uma mulher de fibra por vezes forçada a pedir auxílio. Mas só por vezes, pois aguenta a dor como ninguém e acha que dinheiro é necessário, mas não essencial.

- Toma seu café. Um prêmio pela pesquisa ao santo Google. Valeu!

- Santa sabedoria! Murmura entre dentes o pobre Ubaldo.

Maria responde prontamente jogando os cabelos lindamente escovados.

Eu ouvi, mas faço que não.

Lá do canto do quarto Ubaldo olha por sob o óculo, esfregando os respingos do café no pijama. No espelho, uma mulher recém saída do banho para a ventania. Seu rastro de Prada está no ar. Altos saltos firmemente pisam o chão ao compasso de Milton “Maria, Maria É um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta. Uma mulher que merece viver e amar”.

E lá foi Maria, para mais um dia enfrentar a ventania.

...Como todos os dias.

Nunca dias iguais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Longe do brejo

Nessa chuvosa manhã invernal pensei em sapos. Odeio sapos, muito mais aqueles de caras esquálidas que as pessoas insistem em usar como enfeite domiciliar. Misturei sapos, mau gosto, frio e nada por fazer, já que ainda é cedo e o Brasil anda lento.

Nossa que mistura!

Mesmo não sendo uma verdulóide e também não pertencendo aos adoráveis anarquistas do Green Peace, resolvi dar um basta nos atiradores de batráquios e juro que vou descobrir em qual pântano esses arremessadores de anuros guardam a munição para os seus ataques quase que diários e intermináveis.
Um Biologe Freund (amigo biólogo em alemão) contou-me que a associação do sapo com algo nada agradável de engolir, digamos então “impalatável” vem lá do tempo do Epa, que coisa mais velha essa de intrigas, não?? Disse-me que está em determinado lugar no livro do Êxodo que um faraó nada simpático recebeu como punição de Deus uma série de pragas, uma das quais se constituía de uma invasão de milhares de rãs. Ou seriam sapos? Tanto faz, dá na mesma, o gosto é igual se não acrescentarmos açafrão. Se não é a mesma coisa, devem pertencer ao mesmo clã, com toda a certeza. Segundo o Freund, o cara encontrou o saltitante anfíbio anuro em todos os lugares possíveis e imagináveis do seu faraônico palácio – inclusive em seu suntuoso quarto de dormir, cozinha e banheiro. Imagine um faraó batracófobo com dor de barriga... He! He! Nada agradável.
Mudando de assunto, mas sem deixar o tema. Meu pensamento sai do Egito e vai para o contos de fadas onde sapos e príncipes disputam palmo à palmo o final feliz. É... Deus criou o mundo, os sapos e nós o fizemos um bicho nojento e é nele que acabamos nos transformando ao longo da vida, mesmo que tenhamos nascidos príncipes. E assim vamos explicando a eterna diferença entre o bem e o mal. Convenhamos, não precisamos ser ecologista para saber que esses inocentes e rastejantes seres têm lá sua utilidade e com certeza não é em nossa garganta ou estômago. Proponho nesta manhã chuvosa, uma campanha socialmente correta:
“Jogue seu sapo no brejo certo”.O meio social que você vive agradecerá.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Meu destino é pecar

Padre dai-me a vossa bênção porque estou fordida.
Sim, minha filha. Podemos perdoar, mas não erros de português.
Mas padre, não estou errada, estou fordida mesmo. Isso desde um fiesta street.
E onde está seu pecado ?
Bem, lá em 2000 eu me irritei. De tanto ser enrolada pelos súditos reclamei ao rei e fui atendida prontamente.
E como você chegou até ele, filha?
Pelo 0800 . Viva o país que tem Código de Proteção ao
Cliente!
Continue ...
Depois de perder a educação com os súditos daquele forte reinado, resolvi me aventurar e sai por ai toyotando, renaultiando e até peageutiando
feliz da vida.
E onde você pecou nessas suas viagens?
Até eles nada. Mas veio a tentação, de forma arredondada, diferente, parecendo uma carocha preta. Traseiro reto, peito estufado. Enfim, Não resisti e voltei para o forte mundo.
Continue filha...
Bem, fordida eu fiquei. Mas perdoei e resolvi tentar mais uma vez.
Fez bem,
filha e como foi essa remissão?
Fui ao consulado mais próximo e revalidei meu passaporte por mais tempo achando que a minha vida seria uma fiesta.
E não se arrependeu, recomeçar valeu à pena?
O selo valeu, mas o serviço, uma droga, coitado do cônsul que se esforça em seu trabalho e a sua equipe se atropela o tempo todo.
E isso não é perdoável?
Perdoável seria se não fosse contratual, até manual de instrução vem com o selo. E todo o tempo o cônsul explora essas fortes vantagens.
Mas filha isso passou, porque você não vai volkswagenear , lá está frio, bom para esfriar a cabeça.
Não posso, padre.
Mas por quê?
Eu cometi o maior de todos os meus pecados. Me fordi novamente e por livre e espontânea vontade, o que é pior eu estou sem focus.
Mas como?
Será que sob estresse fizemos besteira ou será milagre de Santa Terezinha?
Santa Terezinha ajuda muito quanto ao estresse um terapeuta lhe responderá?
Bom, vou anotar para perguntar a ele.
Mas o relacionamento está bem entre você e o consulado?
Não, já perdi a paciência com servidores que têm culpa apenas porque representam o forte país.
Mas eles estão acostumados filha,. Te perdoarão.
Sei disso, mas eu que é não me perdôo. Até preparo uma carta ao rei forte.
E o que você diz nela?
Apenas lembretes dos escritos do Código de Defesa do Consumidor e do manual que acompanha o selo de adquirido.
Isso não é pecado filha, é um chamado à responsabilidade.
Pode ser, mas não seria necessário eu estar fordida se cada um soubesse das suas.
Sei filha, sei... Mas, Pai daí-lhe a vossa bênção, para que esta filha não forda mais.
Amém.