quinta-feira, 28 de julho de 2011

Porque hoje é sábado.

O celular toca.
É aquela ligação que eu não esperava.
Olá, Como vai?
Oiii! Estou bem!
O que vai fazer nesta noite de sábado?
Dormir.
Onde?
Na minha cama.
Sozinha?
Sim. Por que?
Venha me ver aqui em B. Estou com saudade.
E o que você faz ai em B? Uns amigos vieram jogar e eu vim para ficar com você.
Mas eu não moro em B a minha cidade fica 130 km para trás, você passou por aqui.
Sim passei. Mas venha. Quero te ver.
Calma, calma. Estou vendo um programa interessante na TV, penso depois e ligo.
Claro, eu espero. São apenas 18 horas.
... Acabou o programa. Olho pela janela e vejo muita chuva e frio e com o agravante de ser sábado. Dia que odeio que me impunham compromissos. Sábado é o meu dia.
Penso e ligo.
Não vou não. Adoro ficar em casa, já estou de pijama. E durante a semana não pude ficar em nenhum momento sozinha em casa.
Não aceito um não como resposta. Quero você. E já me preparei para te receber.
Vamos sair, jantar e depois para o hotel, quero matar a saudade.
Desligo sem dar nenhuma afirmativa. Aos poucos vou colocando roupas extras e produtos de toalete em uma valise. Vou para o banho, capricho no visual e no aroma.
Um tchau para meus animais e sigo para os 40 minutos que me separam de uma noite especial em B.
Passado 30 minutos toca o fone.
Onde você está?
Quase aí.
Legal, te espero na frente.
Oi... Que bom que veio.
... Surdos sons de beijos saudosos ecoam pelas ruas de B.
Passeio de mãos dadas, jantar e o enfim sós.
Sinto muito, não temos mais nenhum apartamento disponível, disse o recepcionista do hotel.
Como assim? Penso e nada falo.
Já estou hospedado aqui, quero apenas mudar para outro quarto.
Só temos um quarto e estamos aguardando o hóspede chegar.
Sento-me distante para que as coisas se resolvam. Afinal me foi prometido uma noite especial e hoje é sábado, o meu dia.
Querida, vamos dar uma volta. Daqui a 15 minutos vence a reserva, é provável que o hóspede não chegue.
Concordo e saio para um novo passeio de mãos dadas.
Minha pouca indignação é afugentada pela agradável companhia.
Voltamos e nada foi resolvido.
Sou uma sem cama e sem noite agradável em B.
Querida, espere-me aqui, vou subir pegar uma roupa e voltar 130 km com você.
Sim. Mas não confie que eu espere.
Você não faria isso. Já volto.
Passo para o banco do motorista, ligo carro e celular e digo apenas:
estou indo...
Hoje é um dia especial.
E eu também queria ser especial, mas nada estava preparado para me receber.
Só porque hoje é sábado, o meu dia.
Eu fui.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Sou da real


Há dia em que nada, nem mesmo o prazer da leitura consegue me entreter.

Você com tédio? Parece ser difícil.

Sim sou mortal, também tenho dias de tédio ou fastio como queira.

E qual a última vez que isso lhe aconteceu?

Semana passada, quando o calor passava dos quarenta e minha conta de luz dos 200 reais.

Por quê?

Ar condicionado e internet. Meu mundo se fechou com as janelas e portas da minha casa. Fiquei tal e qual o Mundo Ovo de Eli Heil. Mas, não sendo excêntrica como ela e com a lógica de meu raciocínio explico. Se o mundo não me satisfaz, crio outro, menor, mas meu.

E o que você visitou em suas viagens virtuais?

Nada, apenas tentei fazer amigos sem corpo só com inteligência. Mas olha amiga é praticamente impossível.

Mas o que é ruim? Os assuntos, a gramática, as atitudes...

Na maioria das vezes as duas coisas, mas nada se compara a criatividade dos apelidos utilizados nos chats criados para pessoas beirando terceira idade.

Você quer dizer entre 40 e 50 anos creio eu. Como selecionavas as pessoas para papear?

De um modo bem simples. O cara que colocava o apelido seguido da palavra “cam”, eu nem respondia ao cumprimento,isso porque na segunda linha do papo já mandam “ posso te ver na câmera”? Descarta-os pelo silêncio. Jamais mostraria como eu vivo para alguém que realmente desconheço, isso é invasão de privacidade. Não faço, não quero.

Se analisarmos pela lógica que você tanto defende, tens toda a razão.

Ulah lah! Uma análise sem condenação. Mas continuando, há ainda os que entram com apelidos apelativos, tipo: Kasado e só, Nú pra você, Salgadinho, (H)Ker namorada, 40ntão separado, Empresário na cidade, Sucatão, Só(H)Mulheres e por ai vai um verdadeiro festival de bizarrices,. Mas há piores, no entanto não posso escrever aqui. Algum servo de Maria pode me chamar atenção.

Não posso esquecer dos criativos, nicks que estimulam a minha curiosidade e na maioria das vezes atrás dele há uma pessoa virtualmente interessante. E se não há, a explicativa por ser.

E com quais explicáveis você teclou?

Com vários, entre eles o Não quero Teclar(H), Spantalho, Plácido, Raptor e em especial o Quero Fofa, esse eu não poderia perder... Esses são os que me lembro, pois foram além da quinta linha digitada sem que eu a ignorá-los.

E os que não passaram da quinta, quais os pecados virtuais cometidos?

Simples, a mesmice das perguntas cansa. Acho até que não deveríamos entrar com um apelido e sim com um kit com informações prévias?

Como assim?

Um kit com subsídios necessários a sua pretensão virtual. Um resumo das características intelectuais ou até físicas para quanto essas sobrepõem o intelecto.

O que você sugere para quem quer fazer do mundo virtual uma agência de namoro?

Tudo depende do seu querer também, se só quer sexo casual tecle com o Desejo Ardente (H). Se seu caso é aventura, fique com o Homem Bronzeado ou ainda com o mais explícito HKer ou o Desejo Ardente/H.

Torno a perguntar: como devo me apelidar se eu quero namoro mesmo?

Eu é que pergunto a você: você quer um namoro que comece com sexo ou com atestado de inteligência?

Agora você apelou.

Você é bonita, bem sucedida, inteligente e com um papo extremamente agradável, porque iria para uma sala virtual?

Faço a mesma pergunta a você, não me diga que era para fugir do calor?

Também, já que os homens fogem de mim...

Creio que não é bem assim.

Bem assim não é, mas no mundo virtual eu não poderia me apresentar sob o kit “loura,1,67,53k”. Não conseguiria sustentar mentiras, nem mesmo as virtuais. E se conseguisse, o lado de lá ficaria na categoria Quinta Linha.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Palavras caladas


Em uma tarde sacro outonal, decidi que num passado distante estive em clausura. Parte de mim quis ser casta por 15 minutos e escolhi a Congregação Mariana para fazer parte deste passado imaginário.

Meigas imagens infantis remeteram-me ao Padre Amílcar e sem pestanejar disse ter estado na congregação dos servos de Maria.Uma mentira imediatamente interpelada pelo meu amigo o Homem da Montanha:
- Mas como você conseguiu? Com certeza é a primeira e ainda única mulher que passou por lá parte.
-Como assim?
- Por lá só passam homens, é uma congregação de padres e o Padre Amilcar pertencia essa congregação. Porque não optou pelas femininas.
- Bem, primeiro a memória me traiu e também porque as Clarissas andam descalças e eu adoro sapatos.
- E as Benedetinas?
- Não. Poderia ficar com aquele meio sorriso bronco da Irmã Ana Luiza. Não daria certo.
- E as outras ordens?.
- Olha homem montês, sou uma mulher da planície que adora a liberdade , nem o claustro nem batinas me cairiam bem. E indo mais além, também tem Maria no meu nome e isso poderia ficar esquisito.
- Esquisito como?
- A Congregação não abriga os servos de Maria?
- Sim. É isso mesmo.
- Então, veja bem. Eu, uma única mulher arrastando a batina dentro de um mundo eclesiástico, muitos servos eu poderia fazer.
- Então seu negócio é um mundo masculino e servil?
- Não mesmo, senhor Montês. Servos servem com excessivo prazer a um modelo original. Eu prefiro os anarquistas, aqueles que conscientemente sabem dizer não a vontade de alguém. Dizer sim a tudo não nos faz as melhores companhias. Concordas?
- Concordo sem submissão, senhora da planície.
- Só concordas? Em nada discordas ou discorres.
Fez-se um silêncio, talvez celestial, não porque passou um anjo, mas pela companhia quase sacerdotal.
- E... , digo eu impaciente aguardando resposta.
- Calma, será que para você tudo tem que ter réplica, mulher da planície?
- O mundo machista me fez assim. Sempre há uma resposta e eu preciso ficar na defensiva.
- Até que enfim! Grita uma terceira voz.
- Enfim o quê? Gritamos eu e o homem da montanha.
- Até que enfim alguém sabe fazer você silenciar pelo próprio silêncio.
Senza parole , io sono in silenzio.

domingo, 3 de julho de 2011

Café e filosofia


Tomar um café com a velha e jovem amiga Lisa Elisa faz com que a minha tarde seja mais agradável. Ela é daquelas pessoas especiais, com transparência no olhar, amizade no ombro, cheiro do querer bem e um corpo escultural em disposição e presença amiga.
Novidade no ar? Diz Lisa Elisa
Respondo: nada muito novo, apenas que estou saindo um pouco mais.
- Saindo pra onde?
- Para bares, lugares e outros ares. Buscando novas possibilidades, novas pessoas.
- Isso é muito bom. E o que está encontrando?
- Confusões em ebulição. Flertes sem imaginação. Boas conversas. Não dá para enumerar, ainda estou descobrindo. O mundo ficou muito estranho, parece que as pessoas querem ter-se a qualquer preço e a preço nenhum querem ir-se.
- Oh! Amiga, bem vinda ao mundo real. Prepare-se para ouvir frases do tipo:
Depois eu te ligo! Nossa! Como você emagreceu! Descansa que vai dar tudo certo! Só bebo em ocasiões especiais. Não vou contar nada a ninguém! Não é uma questão de dinheiro, mas sim de princípios. Não temos nada um com o outro. Somos apenas bons amigos. Estás cada vez mais jovem. Fico triste por você. O dinheiro não trás felicidade
Sempre serás a única. Ainda bem que já refizeste a tua vida. Fico feliz por ti! O que importa realmente é a amizade. Liguei, mas não atendeu. Na próxima, pago eu!
- Mas assim você me assusta. Traumatizo e não saio mais.
- Calma! Calma! Eu explico. Estou na estrada há tempos, tive que aprender a me virar, mas você é diferente. Você é mais que especial. Você crê em tudo que lhe falam, porque tudo o que você fala é verdade. Suas palavras são sinceras e seus atos ainda mais. Você tem que ver a pessoas da maneira diferente que você vive. Você não pode generalizar a partir de você. No mundo, embora você não veja, há crueldade humana.
- Agora amiga, sem filosofar. Estás ficando com alguém?
- Sim, estou em encantamento. E acho que você conhece.
- Fico feliz, se estás feliz. E posso saber quem?
Num murmuro, Lisa Eliza diz: o Hector.
Pulo da cadeira. O Hector, não! Não! Não! E não!
- Mas por quê?
- Nele há resquícios de canalhice e aprenda logo que canalhas são charmosos. Você está preparada?
- Preparada como? Pergunta Lisa Elisa assustada.
Calmamente filosofo. Interessar-se por integrantes desse clã requer prática. Pois, se você quer mesmo fugir dos canalhas, considere a possibilidade de encantar-se por alguém não muito atraente.É muito importante saber que não é a canalhice que torna um homem atraente, mas ser atraente é o que possibilita a um homem ser canalha. Os não-atraentes não conseguem ser canalhas charmosos, mesmo que queiram, e acabam por ficarem desinteressantes aos nossos olhos.
Mil justificativas podemos dar para esse tipo de atração, e quando chegamos a um resultado desastroso, vimos isso que formos amaldiçoadas: os canalhas são irresistivelmente mais charmosos que os demais homens.
- Mas Hector é um canalha?
- Não sei amiga, mas se não fosse você se interessaria por ele?
Sem palavras, Lisa Elisa me contempla e se levanta.
- Bem vinda a essa rede de intrigas chamada mundo real! E, sente-se para outro café.